‘Overhype’ infla números de Uber, que amarga prejuízos desde 2012

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Fonte: http://gawker.com/

Não é o que parece. A Uber, que esteve no centro de uma polêmica que parou os taxistas de algumas capitais no mês passado, contrariamente ao que sugerem os veículos da grande imprensa, amarga prejuízos desde 2012 e só alcança valores estratosféricos no mercado de ações devido ao overhype praticado pelo seu CEO Travis Kalanik, em todo contato que tem com a mídia.

Segundo dados obtidos por Sam Biddle, da Gawker, a empresa “financia seu crescimento astronômico amargando perdas impressionantes”.

Recentemente, a Folha de S. Paulo e outros jornais brasileiros alardearam o fato de a referida empresa haver captado 1 bilhão de dólares com investidores o que a fez passar a ser avaliada em 51 bilhões de dólares, um valor de mercado, segundo a Folha, superior ao da Petrobras.

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A economia em rede tem se caracterizado pela promoção exagerada de novas tecnologias, visando sua alavancagem no mercado. Tal fenômeno do overhype das novas tecnologias já foi objeto de uma tese de doutorado de minha autoria (no caso, referente às células-tronco embrionárias).

As promessas iniciais são ambiciosas de forma a atrair atenção dos patrocinadores (financeiros), estimular processos de agendamento (agenda-setting) técnico e político e construir ‘espaços protegidos’ (BORUP et al. , 2006, p, 290; GEELS e SMIT, 2000, p. 181-182).

Os dados revelados pela Gawker são absolutamente contundentes e merecem o seu exame.

Veja os dados obtidos pela Gawker !   (Em inglês)

Resenha: ‘Dinheiro, Dinheiro’, de João Sayad

nadando dinheiro

 “Dinheiro, Dinheiro:­ Inflação, Desemprego, Crises Financeiras e Bancos”, de João Sayad. Portfolio Penguin, 2015. R$ 49,90.

Por Emmanoel Boff

O que um livro sobre dinheiro tem a ver com Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia? A relação entre um e outro, em princípio, pode parecer tênue para figurar neste blog. Quando se pensa em economia e economistas, normalmente se pensa numa série de profissionais e atividades práticas que lidam com a produção, distribuição e consumo de bens e serviços, além de dinheiro, bancos, bolsa de valores…cadê os estudos sociais da ciência aí no meio?

De fato, por trás de todas as práticas conduzidas por economistas há um conjunto de teorias que visa, em princípio, explicá­-las. Dentro deste conjunto, o professor da USP e ex­-ministro do Planejamento, João Sayad , destaca teorias monetaristas e keynesianas. Controvérsias entre elas não faltam. Debates recentes nos jornais brasileiros opõem representantes da(s) escola(s) monetarista(s) aos keynesianos com frequência. Montados cada um em seus dados, a luta pela representação correta das práticas econômicas entre essas escolas gasta muita tinta, papel e deixa grande parte da população provavelmente confusa.

É justamente no seio dessas controvérsias que Sayad começa sua argumentação. Ele não visa, em princípio, defender este ou aquele lado. Pelo contrário: o interessante do argumento é tentar entender os movimentos e táticas dessa batalha quase centenária entre diferentes escolas de macroeconomia, segundo um ponto-chave na discussão. Para ser preciso: o dinheiro e sua natureza. Continue lendo “Resenha: ‘Dinheiro, Dinheiro’, de João Sayad”

Nassif, o Brasil atual, e as Teorias da Comunicação de Massa

Se o campo dos Estudos da Comunicação tivesse chegado à sua idade adulta no Brasil, ele poderia estar prestando um relevante serviço à compreensão desta esfinge em que,  de junho de 2013 para cá, se transformou este país.

Explico melhor. O que toda teoria social gostaria de ser quando crescesse?

Basicamente,  capaz de explicar, com altos graus de plausibilidade, a mudança social.

Inúmeros teóricos da Comunicação tentaram se debruçar sobre a mudança social a partir de suas observações sobre o papel das mídias na sociedade. O problema é que a grande teoria macro, que poderia dar conta da explicação global da mudança social, ainda está sendo gestada. E engatinha.

Trata-se da teoria da dependência dos sistemas de mídia .

Mas neste vídeo, Luís Nassif faz uma interessante interpretação do momento atual do país, acionando, a meu ver, três teorias de comunicação de massa: agendamento, espiral do silêncio e ecologia midiática. Elas possuem grande capacidade analítica de, reunidas, descrever nossos tempos sombrios.

Resumindo bastante, Nassif nos mostra aqui que a grande imprensa está agendando a intolerância de modo determinante e sistemático neste país,  através da imprensa escrita e da televisão. Tal agendamento revela toda sua eficácia nas redes sociais, onde, desavergonhadamente , as elites o replicam, revelando seu preconceito de classe, quebrando certa espiral do silẽncio que até então vigorava.

Tudo isso acontece por conta da centralidade das mídias na definição da economia simbólica contemporânea, como já antecipara Marshal MacLuhan, com seu conceito de media ecology.

Involuntariamente, Nassif acaba nos revelando a escassez de um corpo sólido de estudos de comunicação neste país que possam dar conta do momento atual em que estamos vivendo, já que seus mais lídimos pesquisadores não tem se debruçado sobre este interessante objeto de estudo.

Que saúde você vê (na mídia)?

Em nosso post que inaugura o Canal Saúde Coletiva deste blog, quero conversar com você sobre a Saúde que você vê na mídia.

Você acredita que as mensagens sobre saúde na mídia inevitavelmente promovem uma vida saudável? Qual o limite entre o real e o espetáculo em reportagens que retratam o SUS na mídia?

Sabemos que o SUS padece de um subfinanciamento histórico, que redunda em desassistência para a população em muitos casos. Mas você sabe como chegamos a este estado de coisas? Não seria melhor entender o SUS para discuti-lo com mais propriedade?

Foi pensando nisso que criamos esta nova seção. E estreamos com uma discussão muito interessante entre comunicadores de saúde sobre as representações desta na mídia. Vale conferir !

Preocupações científicas acerca de alegações de ‘curas’ com células-tronco

money tratado

Pete Shanks, 9/1/2014

O negócio duvidoso de vender as denominadas “terapias” com células-tronco parece estar ganhando corpo e alguns cientistas estão bastante preocupados com isso.

Um pesquisador que é bastante vocal sobre este assunto é o biólogo celular Paul Knoeplfler, da Universidade de Califórnia em Davis, que escreveu na semana passada sobre uma cadeia de clínicas chamada Stem.MD:

Eu estou extremamente preocupado com a segurança dos pacientes, os riscos enfrentados pelos médicos novatos no mundo das células-tronco, e os imensos riscos a todo o campo das células-tronco deve ser um dos mais negativos resultados destas redes de clínicas.

Houve acusações de fraude em Nevada por venderem ‘esperança’ de que os tratamentos com células-tronco iriam curar os cronicamente doentes; reportagens do programa 60 Minutes sobre laboratórios clandestinos no Equador e no México que atendiam americanos; escândalos nas Filipinas  (onde o governo pelo menos tenta regulamentar esta indústria); dificuldades legais e financeiras para a principal empresa do ramo na Coréia do Sul ; e a saga continuada da Celltex, sediada no Texas, que parece estar tratando pacientes no México.

Mas nada supera a Itália neste campo.

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A primeira vítima da ‘guerra contra o câncer’ (você e seu bolso)

dinheiro e cancer

Kas Thomas publicou ontem, no sítio Big Think, um interessantíssimo artigo que faz um balanço da luta contra o câncer, iniciada nos EUA, na década de 1970, pelo presidente Nixon.

Os dados reunidos por ele deixariam envergonhada qualquer pessoa que trabalha com Economia da Saúde em ministério desta pasta. Explico melhor: a economia da saúde é um campo polêmico (normalmente repleto de escolhas de Sofia) que tenta definir, por parâmetros técnico-científicos (não necessariamente interessantes para os cidadãos), onde o governo deve gastar seu dinheiro de forma a assegurar a  melhor relação custo-benefício na Saúde. Como dinheiro, em tese, não estica (a não ser através de especulação),  tal iniciativa é sábia do ponto de vista da gestão de recursos escassos (como é o dinheiro dedicado a gastos com saúde).

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Mídia e saúde: Cirurgias em fim de semana, café e obesidade

cafe tratada

Para o bem ou para o mal, as relações entre mídia e saúde estão longe de ser triviais. É conhecido entre os pesquisadores de comunicação o fato de as matérias de Saúde situarem-se entre aquelas de mais alta taxa de leitura na mídia.

Isso já foi provado cientificamente. Uma revisão sistemática de estudos sobre o tema conduzida pela  Cochrane já identificara, somente até 2002, cinco estudos que avaliaram a utilização de cuidados de saúde antes e depois da cobertura midiática de determinados eventos. A referida revisão concluiu que relatos midiáticos desempenham importante papel ao influenciar o uso pelo público de intervenções relacionadas aos cuidados em saúde.

No entanto, a qualidade do que é publicado na imprensa acerca de estudos divulgados em revistas científicas é variável. Jornalistas especializados em saúde enfrentam desafios de toda natureza visando traduzir a linguagem muitas vezes complexa destes artigos para seu público leitor, em sua maioria, leigo.  Assim, já foram publicadas pesquisas que revelam que certas matérias em saúde exageram nos benefícios e negligenciam os riscos de determinadas intervenções, ‘sensacionalizam’ uma variedade de riscos em saúde ou dão destaque demasiado a estudos bastante preliminares sobre este ou aquele tema.

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