‘Ex Machina’: Prometeu (des)acorrentado

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Nosso blogueiro convidado Emmanoel Boff assistiu Ex Machina e nos diz o que lhe pareceu interessante: o que nos torna humanos? 

Ex­ machina, cuja crítica foi postada aqui no blog em duas partes, seria uma típica fábula prometeica em forma de cinemão sci fi pop, não fosse por um detalhe: nosso Prometeu é um humano que, na sua busca por criar um robô tão humano quanto possível, parece perder sua própria humanidade. “Enquanto isso”, você pode pensar, “o robô criado acaba sendo mais humano que os humanos…Blade Runner, né?” Mas será mesmo? Essa pergunta talvez seja melhor respondida pelo próprio espectador…

O que interessa, entretanto, é que a pergunta surge. Surge e faz pensar: que Prometeu tecnológico é esse que com seus inventos tecnológicos acaba correndo o risco de tirar a humanidade dos humanos? E como recupera essa ? Será que estamos num caminho de desenvolvimento tecnológico trágico e sem volta? O pensador esloveno Slavoj Zizek sugere que o aquecimento global, tensões sociais crescentes pelo globo, a revolução biogenética e o colapso dos mercados financeiros de 2008 são todos sinais do fim dos tempos (E existem bons filmes pipocas recentes sobre biogenética para acompanhar esse fim dos tempos).

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Ex-Machina discute a moralidade da Inteligência Artificial (Final)

Ex-Machina 2

 

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS

Curiosamente, na visão de mundo de Nathan, ‘empatia’ e ‘sexualidade’ não são interessantes em si mesmos: São compreensíveis apenas como meios para um fim.

Ex Machina pode ser a favor da Inteligência Artificial, mas não pró-Singularidade: neste filme, o real supera o virtual e a experiência é incorporada (embodied), sejam os corpos fabricados ou natos. Na primeira vez em que vemos Nathan, ele está suando, socando um saco de pancada. Nós ouvimos os socos, e então o vemos _ troncudo, muscular, agressivo, um contraste com a figura passiva e desafinada. Nathan ironiza a idéia de a Inteligência Artificial ser colocada em uma ‘caixa cinza’, afirmando que sexualidade e consciência não podem ser separadas, uma crença manifestada no corpo de Ava. O tema da corporeidade (embodiment) torna-se mais (literalmente) agudo já próximo do final do filme, na cena em que Ava mata Nathan: o sangue vibrante sendo derramado, no mundo de zen-silício controlado do bunker de Nathan, lembra-nos que até mesmo ele tem seus limites. Ele surge no filme como um corpo vigoroso, mas termina como um corpo vulnerável.

Esta cena fundamental só aumenta as tensões que Ava corporifica. Ela é puramente “humana” ao cobiçar liberdade, auto-determinação e sobrevivência; ela parece puramente maquínica, sua face inexpressiva quando passa a faca no tórax de Nathan. E ainda sendo esterotipadamente maquínica, ela é como Nathan: implacável e determinada como qualquer algoritmo, calculista em todos os sentidos. Ela também é como Nathan ao abandonar Caleb no subterrâneo: como Nathan, ela aprisiona outrem para seus próprios propósitos.

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Ex-Machina discute a moralidade da Inteligência Artificial (Parte 1)

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Atenção: CONTÉM SPOILERS !!!

A cena do escritório é tão curta quanto intensa. Nela, vemos Caleb como se estivesse sob uma câmera de computador. Uma luz colorida tremula nos lados do seu rosto; uma grade aparece sobre os contornos de seu rosto. A perspectiva da câmera sugere que ele está sendo vigiado — como de fato está — mas também, mais perturbadoramente, que ele mesmo é artificial, que o programador e o hardware partilham mais que proximidade: ele quase aparece tremulando de dentro. O mesmo efeito ocorre mais tarde no filme, quando Caleb — totalmente desorientado pelos eventos que ocorrerão — faz uma incisão em seu braço para verificar se ele é humano, esfrega sangue no espelho do banheiro, e então dá um soco no espelho com a mão. É um drama sobre identidade, sobre estar em seu corpo, sobre vigilância que dura alguns segundos, e assim como na cena inicial, nós o vemos como se através do espelho, que esconde uma câmera.

Veja o trailer de Ex Machina !

Em ambas as cenas, o ângulo da câmera mostra que há uma audiência. Vendo Caleb como voyeurs, numa tela, presumimos o ponto de vista de um observador oculto. O filme é um espelho negro, uma tela e uma janela ao mesmo tempo, nos mostrando nosso mundo como ele se nos apresenta. Ele está situado no presente, não no futuro; e no fundo seu tema, apesar dos incríveis efeitos especiais, é menos a tecnologia do futuro que a tecnologia que nos rodeia.

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