O Caso Samarco: A verdade sobre os metais pesados no Rio Doce!

pensador triste

Jornalistas familiarizados com a cobertura de problemas ambientais conhecem o fenômeno da “guerra de versões” entre poluidoras e organizações voltadas para o interesse público. Trata-se de um fenômeno mundial e que se combate com a provisão de informação acurada e independente . Coisa que anda faltando no jornalismo diário.

A batalha de versões neste momento se concentra na eventual presença de metais pesados nos rejeitos de minério de ferro que percorrem agora o rio Doce, pelo rompimento de barragem que os continha, em Mariana (MG). Confirmada a presença, o caso assume feições muito preocupantes dada as certezas já bastante consolidadas pela ciência sobre os efeitos carcinogênicos e patogênicos atribuídos a estes metais. Disso, deste efeito sobre a saúde humana, ninguém tem qualquer dúvida.

Metais pesados são os elementos químicos com número atômico superior a 22. Eles são conhecidos, principalmente, por comprometerem a saúde humana. O chumbo, por exemplo, pode causar envenenamento crônico, atingindo o sistema nervoso central com consequências bastante sérias. Para os peixes, as doses letais deste elemento variam de 0,1 a 0,4 mg/L, valores que também se aplicam a outras substâncias como níquel e zinco.

Devido às suas altas toxicidades, os níveis de metais pesados são rigorosamente definidos (mas será que controlados?) nas Legislações nacionais em vigor. Por exemplo, a Portaria 2914 do Ministério da Saúde, que rege os parâmetros desejados na água Potável e o Decreto 8.468 do Estado de São Paulo, que dispõe sobre o controle da poluição do meio-ambiente. As tabelas abaixo apresentam as quantidades limites para presença destas substâncias em água, nas duas legislações (clique nas imagens para aumentar):

Samarco 1

Samarco 2

A Samarco, que tem como acionistas a Vale do Rio Doce, privatizada por Fernando Henrique Cardoso, e a australiana BHP, afirmou , nesta sexta-feira (13/11),  que pode provar  “com laudos que o material que foi descartado no rio Doce não possui metais pesados“.

No entanto, “exames encomendados pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), de Baixo Guandu (ES), município afetado pelo problema,  atestam a presença de arsênio, chumbo, cromo, zinco, bário e manganês, entre outros, em níveis muito acima do recomendável“.

A Samarco não apresentou ao público os laudos que alega ter, muito menos suas conclusões. Já a SAAE de Baixo Guandu os divulgou publicamente. São simplesmente alarmantes.

Compare os valores constantes neste relatório com a tabela abaixo, que definem os limites toleráveis estabelecidos por lei em solo nacional. É assustador (Clique na imagem para aumentar).

Samarco 4

Se você já fez exame de sangue (o famoso hemograma completo), já deve ter percebido que, ao lado dos resultados de seu exame, sempre aparecem uns tais de “valores de referência” , valores limitrofes que definem o que é considerado colesterol alto, colesterol normal, etc. Isso serve pra você ter uma idéia prévia sobre o seu exame de sangue. Basta comparar os valores de seu exame com os valores de referência para verificar em linhas gerais a quantas anda sua saúde.

Pois bem, as análises ambientais encomendadas apresentam a mesma situação. Dependendo do protocolo adotado , os valores de referência podem variar grandemente. É como se , em um exame de sangue com resultados x, pelo protocolo A, você teria colesterol alto. Já pelo protocolo B, você teria colesterol considerado normal.

Pois bem: é bastante usual que as grandes empresas que potencialmente apresentam grandes riscos ambientais escolham os protocolos com valores de referência mais amplos. Assim, elas sempre podem alegar estar com observando padrões de normalidade comprovados em documentos. Mas esse nem é o caso da Samarco. Ela simplesmente se recusa a revelar seus resultados publicamente. 

Quando chega neste ponto, a discussão não deveria ser científica; mas sim política. Trata-se de saber que protocolo a sociedade entende como melhor protetor de sua saúde. Mas pra isso a gente precisa evoluir muito na democracia.

Que saúde você vê (na mídia)?

Em nosso post que inaugura o Canal Saúde Coletiva deste blog, quero conversar com você sobre a Saúde que você vê na mídia.

Você acredita que as mensagens sobre saúde na mídia inevitavelmente promovem uma vida saudável? Qual o limite entre o real e o espetáculo em reportagens que retratam o SUS na mídia?

Sabemos que o SUS padece de um subfinanciamento histórico, que redunda em desassistência para a população em muitos casos. Mas você sabe como chegamos a este estado de coisas? Não seria melhor entender o SUS para discuti-lo com mais propriedade?

Foi pensando nisso que criamos esta nova seção. E estreamos com uma discussão muito interessante entre comunicadores de saúde sobre as representações desta na mídia. Vale conferir !