Angelina Jolie e a saúde pública: US$ 14 milhões em testes desnecessários

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Você deve se lembrar:  Há cerca de três anos, a atriz anunciou em artigo publicado no New York Times que teria se submetido à mastectomia dupla profilática seguida de reconstrução mamária, após constatar que possuía mutação do gene BRCA1, um fator preditivo de elevado risco de câncer de mama e de ovário em alguma fase de sua vida.

Na ocasião, a notícia ganhou repercussão impressionante na mídia internacional, com reações predominantes de admiração pela “bravura” da atriz e relativamente discretos comentários de especialistas sobre a cautela a ser adotada por outras mulheres na mesma situação.

Pois bem, agora pesquisadores de Harvard investigaram dados do seguro saúde de quase 10 milhões de mulheres antes e após a publicação do artigo de opinião de Jolie no NYT. Os achados foram publicados na prestigiosa British Medical Journal.

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O impressionante mundo das pequenas misses. Será mesmo?

pequenas misses

Muitos sociólogos argumentam que o gênero, tal como o concebemos, não é inato, mas culturalmente desenvolvido. Certos momentos de nossas vidas, como cerimônias de casamento e bailes de debutantes, são oportunidades para se enfatizar a feminilidade e a masculinidade; mas o gênero também é desempenhado em formas mais mundanas pelo modo com que falamos, nos locomovemos, nos vestimos ou nos enfeitamos.

Estas fotografias de participantes de concursos de misses infantis, de autoria de Susan Anderson e publicadas em seu livro High Glitz, ilustram o quanto de apelo sexual feminino é aqui acionado e posto para funcionar. Estas crianças são transformadas em adultas à custa de muita maquilagem e frequentemente também usam dentes postiços e apliques nos cabelos. Você pode conferir algumas imagens adicionais em Powerhouse Books.

As pessoas sempre argumentam que este tipo de adornos em uma criança soam antinaturais, mas quando as mulheres adultas empregam as mesmas estratégias _ cílios postiços, maquilagem, bijuterias e apliques _ isso também não é menos antinatural. Mulheres adultas, nestes casos, da mesma forma que estas crianças, estão encenando (performing) a feminilidade.

Levando este debate a um outro nível, como faz The Spinster Aunt , se você fica desconfortável com a idéia de pequenas misses , então que repulsa está disposto(a) a sentir pelo projeto de feminilidade em si, e não somente quando encenado por crianças? :

Eu sustento que qualquer pessoa  que fica desconfortável com pequenas misses está eticamente obrigada a também se sentir incomodada com a feminilidade em geral. As pequenas misses são apenas um de uma infinidade de aspectos revoltantes de um continuum pornofeminino a que todas as cidadãs do planeta estão atreladas, graças a uma cultura de opressão.

Assim, se parece problemático quando crianças agem assim (e, nesse sentido, esquisito quando homens também agem dessa forma) , por que não é tão constrangedor quando as mulheres adotam tais práticas?

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Nota do Redator deste Blog: No cinema, o drama das misses infantis foi muito bem retratado na comédia farsesca Pequena Miss Sunshine (2006), onde uma família disfuncional não mede esforços para levar a pequena Olive (numa atuação absolutamente tocante e surpreendente) ao estrelato em uma trama repleta de peripécias e com um final surpreendente. O filme gerou artigos interessantes sobre a relação entre a infãncia, o consumismo e a sensualidade, como Pequena Miss Sunshine: para além de uma subjetividade exterior.


Por Lisa Wade

Originalmente postado em 2010.

Sociological Images mantém uma parceria exclusiva com o blog Conhecimento Prudente.

Imagens Sociológicas: Ver para crer foi criado para encorajar todas as pessoas a exercitarem e desenvolverem sua imaginação sociológica através da apresentação de breves discussões sobre imagens sedutoras e atuais apoiadas por reflexões geradas no vasto campo da pesquisa sociológica. É também um poderoso instrumento de interpretação de mensagens da mídia.

A primeira vítima da ‘guerra contra o câncer’ (você e seu bolso)

dinheiro e cancer

Kas Thomas publicou ontem, no sítio Big Think, um interessantíssimo artigo que faz um balanço da luta contra o câncer, iniciada nos EUA, na década de 1970, pelo presidente Nixon.

Os dados reunidos por ele deixariam envergonhada qualquer pessoa que trabalha com Economia da Saúde em ministério desta pasta. Explico melhor: a economia da saúde é um campo polêmico (normalmente repleto de escolhas de Sofia) que tenta definir, por parâmetros técnico-científicos (não necessariamente interessantes para os cidadãos), onde o governo deve gastar seu dinheiro de forma a assegurar a  melhor relação custo-benefício na Saúde. Como dinheiro, em tese, não estica (a não ser através de especulação),  tal iniciativa é sábia do ponto de vista da gestão de recursos escassos (como é o dinheiro dedicado a gastos com saúde).

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A confissão de Michael Douglas: o risco do HPV e o sexo oral

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michael douglas

Adina Nack, PhD

Também publicado em Girls w/Pen

Tendo escrito durante 13 anos sobre o HPV (papilomavirus humano) transmitido sexualmente, eu ansiava pelo dia em que uma celebridade iria empregar sua fama para revelar fatos sobre a infecção por HPV, especialmente sobre os cânceres orais a ele relacionados. Este dia chegou: Na semana passada Michael Douglas anunciou que seu câncer foi causado pela infecção por HPV provavelmente transmitida através de sexo oral. Os tecidos da membrana mucosa bucal e da garganta são semelhantes àqueles da pele que reveste os órgãos genitais. Por esta razão os pesquisadores já sabem há algum tempo que , como o herpes, o HPV pode ser transmitido da via oral para a genital e vice-versa.

Tenho esperanças de que esta notícia de grande repercussão dada por Michael Douglas possa ser um catalisador de mudanças. Já em 2009 os achados eram claros: a transmissão oral do HPV causador de câncer nos revelava que quase todos nós somos mais propensos ao risco do que imunes a ele. Em meu artigo para a Ms. Magazine eu me concentrei na importância de não só educar o público sobre os cânceres masculinos ligados ao HPV mas também sobre a relação câncer oral e HPV. Adicionalmente, defendi a necessidade de se desestigmatizar todas as doenças sexualmente transmissíveis (DST): minha pesquisa e um livro de minha autoria têm demonstrado que o estigma das DST torna mais provável que indivíduos infectados se recusem a realizar exames ou obter tratamento. O estigma que recai sobre as DST também torna menos provável que indivíduos revelem sua condição para seus parceiros, colocando estes em  risco aumentado de infecção. Além disso, estereótipos negativos sobre os ‘tipos’ de mulheres e homens propensos a serem infectados distorcem nossas idéias sobre quem se encontra em risco.

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Mídia e saúde: Cirurgias em fim de semana, café e obesidade

cafe tratada

Para o bem ou para o mal, as relações entre mídia e saúde estão longe de ser triviais. É conhecido entre os pesquisadores de comunicação o fato de as matérias de Saúde situarem-se entre aquelas de mais alta taxa de leitura na mídia.

Isso já foi provado cientificamente. Uma revisão sistemática de estudos sobre o tema conduzida pela  Cochrane já identificara, somente até 2002, cinco estudos que avaliaram a utilização de cuidados de saúde antes e depois da cobertura midiática de determinados eventos. A referida revisão concluiu que relatos midiáticos desempenham importante papel ao influenciar o uso pelo público de intervenções relacionadas aos cuidados em saúde.

No entanto, a qualidade do que é publicado na imprensa acerca de estudos divulgados em revistas científicas é variável. Jornalistas especializados em saúde enfrentam desafios de toda natureza visando traduzir a linguagem muitas vezes complexa destes artigos para seu público leitor, em sua maioria, leigo.  Assim, já foram publicadas pesquisas que revelam que certas matérias em saúde exageram nos benefícios e negligenciam os riscos de determinadas intervenções, ‘sensacionalizam’ uma variedade de riscos em saúde ou dão destaque demasiado a estudos bastante preliminares sobre este ou aquele tema.

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O sinistro Dr. Google : Portadores de doenças raras adotam medidas desesperadas

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A revista The Scientist publicou, no dia 1 de março, interessantíssima e aprofundada reportagem investigativa de capa sobre pacientes que estão dispensando os testes clínicos regulamentados e agindo, em total desespero, como cobaias de si próprias para investigar novos tratamentos para doenças fatais.

A reportagem tem como personagens principais Joan Valor Butler e seu filho, de 42 anos, que sofre de esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença rara, degenerativa e que coloca seu portador em risco de morte.

O texto, de autoria de Jel Akst, editor da revista The Scientist, começa pela descrição de fatos ocorridos no dia 10 de agosto de 2011, quando Joan diluiu 5% de cloreto de sódio em um galão e gradualmente injetou um litro da solução no tubo que alimenta seu filho, a seu pedido.

A atitude foi motivada pela suposição corrente entre muitos dos portadores de ELA de que o cloreto de sódio seria o princípio ativo de um medicamento promissor em testes clínicos neste momento.

Como acontece comumente entre portadores de doenças raras, Valor, o filho, se tornou um grande especialista em sua condição clínica, razão pela qual acabou conhecendo a droga NP001, em 2010, quando a Neuraltus Pharmaceuticals anunciou que iria iniciar um teste clínico Fase 1 e que estaria recrutando pacientes para o estudo.

Valor tentou se candidatar para os testes, mas com sete anos de progressão da doença, tornava-se pouco adequado para ser recrutado.

A longa reportagem conta detalhes de todo o périplo e peripécias de Valor e outros portadores de ELA para se auto-aplicarem o suposto tratamento, ao melhor estilo “Faça você mesmo”.

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Bancos de células-tronco privados: uma farsa?

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O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida de Portugal e o Comitê de Bioética da Espanha divulgaram um parecer conjunto no mês de dezembro alertando para “promessas de aplicações irrazoáveis” feitas por bancos privados de células-tronco (CT), baseadas em um “modelo comercial” oposto aos “princípios de altruísmo”, que são observados em bancos públicos, e com critérios de seleção e qualidade menos rigorosos.

Condenaram também a estratégia de marketing agressiva e “pouco transparente” destas empresas, que gera promessas infundadas, que não podem cumprir, segundo o geneticista Jorge Sequeiros, um dos relatores do parecer. O objetivo dos pais ao armazenar tais cordões é aproveitar o sangue neles contido para o tratamento de futuras doenças de seus filhos ou familiares. 

Sobre estas práticas de marketing, Sequeiros destaca que uma das duas empresas avaliadas emprega até o termo “seguro de vida” para definir sua prática e proteção para doenças que só surgem na idade adulta, quando o período adequado de criopreservação dos tecidos não passa de 25 anos.

Mais de 120 mil portugueses recorreram a estes serviços, em sua maioria na modalidade privada, desembolsando para tal a soma de aproximadamente quatro mil e quinhentos reais. Restrições aos bancos privados de CT são conhecidas de longa data, sendo que França e Itália simplesmente os proibem de atuar. Nos Estados Unidos, existem alguns serviços privados. Portugal possui um único banco público de CT, o Lusocord.

O parecer não critica a pertinência da utilidade clínica das células-tronco de cordão umbilical em determinadas situações (como transplantes de células da medula ou certas doenças hematológicas), mas lança sérias restrições a promessas terapêuticas no caso de doenças degenerativas como o mal de Alzheimer e a doença de Parkinson, já que “sua validade científica e utilidade potencial não estão ainda estabelecidas e seu uso permanece experimental”.

O documento enumera 16 recomendações a serem observadas na administração destes bancos em sua modalidade pública, praticamente desautorizando o funcionamento de tais iniciativas na modalidade privada. Recomendou também rigor na fiscalização das promessas veiculadas pela publicidade detes bancos.

No Brasil, calcula-se que estejam depositados em bancos privados cerca de 45 mil cordões umbilicais (dados de 2011). Desde 2003, segundo dados da Anvisa, apenas três deles foram empregados em transplantes, o que indica sua baixíssima utilidade em termos de saúde pública ou individual. No entanto, para participar desta loteria, cada brasileiro teve que desembolsar dois mil e quinhentos reais, além de anuidades de 500 reais.

Já os bancos brasileiros públicos de CT, integrados na rede BrasilCord, realizaram, desde 2001, 106 transplantes, armazenando em seus estoques algo em torno de 9.800 unidades congeladas (dados de 2011).

A Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia é contra a existência dos bancos privados, por se tratar de mero negócio, onde as pessoas são ludibriadas num momento delicado de suas vidas.

Saiba mais:

CNE arrasa bancos privados de cordão umbilical (Público/PT) 

Bancos privados de cordão umbilical geraram poucos transplantes (FSP)

crédito da foto: Banc de Sang i Teixits via photopin