Uber: o novo ‘ouro de tolo’?


porcoalado

Por Emmanoel Boff

Post recente do blog Conhecimento Prudente levantou a lebre: será que, apesar de todo o frisson, o Uber realmente está com essa bola toda e valendo mais que a Petrobrás?

A pergunta faz sentido, ainda mais quando o Gawker aponta para documentos que mostram que desde 2012 o Uber só tem prejuízos. A situação abala nosso senso comum sobre economia: Como uma empresa que dá prejuízo há mais de três anos vale mais que a Petrobrás que, Lava­Jato à parte, é lucrativa?

Matt, o primeiro comentarista no post da Gawker, deve refletir a dúvida e a opinião de muitos leitores: o que o Uber possui, na verdade, é “dinheiro de mentira” (fake money), isto é, suposto dinheiro que o Uber pode auferir em um futuro indeterminado, caso venha a crescer tudo que os investidores ­­ que investem real money ­­ esperam. O problema é que, se o Uber deixar de faturar no futuro o que as pessoas esperam que ele fature, é o dinheiro real das pessoas que vai pro saco. E aí somem do mapa o equivalente a não se sabe quantos PIBs de países africanos ou latinoamericanos, como às vezes vemos nos telejornais.

Com a resenha sobre o livro recente do João Sayad aponta, talvez seja possível contar essa história de modo um pouco diferente. Ora, se como Sayad sustenta, o dinheiro é mesmo um mito, a questão central deixa de ser a distinção entre fake money e real money. A questão agora é como se mantém o mito de que o Uber vale a fé em forma de dólares depositada por um monte de investidores no valor dele. “OK”, um cético pode bradar, “mas há uma série de práticas concretas e materiais que devem embasar o valor monetário da empresa!”. Nada mais correto.

Mas a questão que estamos tentando levantar é: como ligamos e sustentamos a ligação entre essas práticas concretas e materiais que o Uber realiza e coordena com a prática simbólica de atribuir um número de x dólares à empresa (vulgarmente chamado de “valor de mercado”)?

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‘Overhype’ infla números de Uber, que amarga prejuízos desde 2012

uber

Fonte: http://gawker.com/

Não é o que parece. A Uber, que esteve no centro de uma polêmica que parou os taxistas de algumas capitais no mês passado, contrariamente ao que sugerem os veículos da grande imprensa, amarga prejuízos desde 2012 e só alcança valores estratosféricos no mercado de ações devido ao overhype praticado pelo seu CEO Travis Kalanik, em todo contato que tem com a mídia.

Segundo dados obtidos por Sam Biddle, da Gawker, a empresa “financia seu crescimento astronômico amargando perdas impressionantes”.

Recentemente, a Folha de S. Paulo e outros jornais brasileiros alardearam o fato de a referida empresa haver captado 1 bilhão de dólares com investidores o que a fez passar a ser avaliada em 51 bilhões de dólares, um valor de mercado, segundo a Folha, superior ao da Petrobras.

uber fsp

A economia em rede tem se caracterizado pela promoção exagerada de novas tecnologias, visando sua alavancagem no mercado. Tal fenômeno do overhype das novas tecnologias já foi objeto de uma tese de doutorado de minha autoria (no caso, referente às células-tronco embrionárias).

As promessas iniciais são ambiciosas de forma a atrair atenção dos patrocinadores (financeiros), estimular processos de agendamento (agenda-setting) técnico e político e construir ‘espaços protegidos’ (BORUP et al. , 2006, p, 290; GEELS e SMIT, 2000, p. 181-182).

Os dados revelados pela Gawker são absolutamente contundentes e merecem o seu exame.

Veja os dados obtidos pela Gawker !   (Em inglês)

Resenha: ‘Dinheiro, Dinheiro’, de João Sayad

nadando dinheiro

 “Dinheiro, Dinheiro:­ Inflação, Desemprego, Crises Financeiras e Bancos”, de João Sayad. Portfolio Penguin, 2015. R$ 49,90.

Por Emmanoel Boff

O que um livro sobre dinheiro tem a ver com Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia? A relação entre um e outro, em princípio, pode parecer tênue para figurar neste blog. Quando se pensa em economia e economistas, normalmente se pensa numa série de profissionais e atividades práticas que lidam com a produção, distribuição e consumo de bens e serviços, além de dinheiro, bancos, bolsa de valores…cadê os estudos sociais da ciência aí no meio?

De fato, por trás de todas as práticas conduzidas por economistas há um conjunto de teorias que visa, em princípio, explicá­-las. Dentro deste conjunto, o professor da USP e ex­-ministro do Planejamento, João Sayad , destaca teorias monetaristas e keynesianas. Controvérsias entre elas não faltam. Debates recentes nos jornais brasileiros opõem representantes da(s) escola(s) monetarista(s) aos keynesianos com frequência. Montados cada um em seus dados, a luta pela representação correta das práticas econômicas entre essas escolas gasta muita tinta, papel e deixa grande parte da população provavelmente confusa.

É justamente no seio dessas controvérsias que Sayad começa sua argumentação. Ele não visa, em princípio, defender este ou aquele lado. Pelo contrário: o interessante do argumento é tentar entender os movimentos e táticas dessa batalha quase centenária entre diferentes escolas de macroeconomia, segundo um ponto-chave na discussão. Para ser preciso: o dinheiro e sua natureza. Continue lendo “Resenha: ‘Dinheiro, Dinheiro’, de João Sayad”

Nassif, o Brasil atual, e as Teorias da Comunicação de Massa

Se o campo dos Estudos da Comunicação tivesse chegado à sua idade adulta no Brasil, ele poderia estar prestando um relevante serviço à compreensão desta esfinge em que,  de junho de 2013 para cá, se transformou este país.

Explico melhor. O que toda teoria social gostaria de ser quando crescesse?

Basicamente,  capaz de explicar, com altos graus de plausibilidade, a mudança social.

Inúmeros teóricos da Comunicação tentaram se debruçar sobre a mudança social a partir de suas observações sobre o papel das mídias na sociedade. O problema é que a grande teoria macro, que poderia dar conta da explicação global da mudança social, ainda está sendo gestada. E engatinha.

Trata-se da teoria da dependência dos sistemas de mídia .

Mas neste vídeo, Luís Nassif faz uma interessante interpretação do momento atual do país, acionando, a meu ver, três teorias de comunicação de massa: agendamento, espiral do silêncio e ecologia midiática. Elas possuem grande capacidade analítica de, reunidas, descrever nossos tempos sombrios.

Resumindo bastante, Nassif nos mostra aqui que a grande imprensa está agendando a intolerância de modo determinante e sistemático neste país,  através da imprensa escrita e da televisão. Tal agendamento revela toda sua eficácia nas redes sociais, onde, desavergonhadamente , as elites o replicam, revelando seu preconceito de classe, quebrando certa espiral do silẽncio que até então vigorava.

Tudo isso acontece por conta da centralidade das mídias na definição da economia simbólica contemporânea, como já antecipara Marshal MacLuhan, com seu conceito de media ecology.

Involuntariamente, Nassif acaba nos revelando a escassez de um corpo sólido de estudos de comunicação neste país que possam dar conta do momento atual em que estamos vivendo, já que seus mais lídimos pesquisadores não tem se debruçado sobre este interessante objeto de estudo.

O impressionante mundo das pequenas misses. Será mesmo?

pequenas misses

Muitos sociólogos argumentam que o gênero, tal como o concebemos, não é inato, mas culturalmente desenvolvido. Certos momentos de nossas vidas, como cerimônias de casamento e bailes de debutantes, são oportunidades para se enfatizar a feminilidade e a masculinidade; mas o gênero também é desempenhado em formas mais mundanas pelo modo com que falamos, nos locomovemos, nos vestimos ou nos enfeitamos.

Estas fotografias de participantes de concursos de misses infantis, de autoria de Susan Anderson e publicadas em seu livro High Glitz, ilustram o quanto de apelo sexual feminino é aqui acionado e posto para funcionar. Estas crianças são transformadas em adultas à custa de muita maquilagem e frequentemente também usam dentes postiços e apliques nos cabelos. Você pode conferir algumas imagens adicionais em Powerhouse Books.

As pessoas sempre argumentam que este tipo de adornos em uma criança soam antinaturais, mas quando as mulheres adultas empregam as mesmas estratégias _ cílios postiços, maquilagem, bijuterias e apliques _ isso também não é menos antinatural. Mulheres adultas, nestes casos, da mesma forma que estas crianças, estão encenando (performing) a feminilidade.

Levando este debate a um outro nível, como faz The Spinster Aunt , se você fica desconfortável com a idéia de pequenas misses , então que repulsa está disposto(a) a sentir pelo projeto de feminilidade em si, e não somente quando encenado por crianças? :

Eu sustento que qualquer pessoa  que fica desconfortável com pequenas misses está eticamente obrigada a também se sentir incomodada com a feminilidade em geral. As pequenas misses são apenas um de uma infinidade de aspectos revoltantes de um continuum pornofeminino a que todas as cidadãs do planeta estão atreladas, graças a uma cultura de opressão.

Assim, se parece problemático quando crianças agem assim (e, nesse sentido, esquisito quando homens também agem dessa forma) , por que não é tão constrangedor quando as mulheres adotam tais práticas?

***

Nota do Redator deste Blog: No cinema, o drama das misses infantis foi muito bem retratado na comédia farsesca Pequena Miss Sunshine (2006), onde uma família disfuncional não mede esforços para levar a pequena Olive (numa atuação absolutamente tocante e surpreendente) ao estrelato em uma trama repleta de peripécias e com um final surpreendente. O filme gerou artigos interessantes sobre a relação entre a infãncia, o consumismo e a sensualidade, como Pequena Miss Sunshine: para além de uma subjetividade exterior.


Por Lisa Wade

Originalmente postado em 2010.

Sociological Images mantém uma parceria exclusiva com o blog Conhecimento Prudente.

Imagens Sociológicas: Ver para crer foi criado para encorajar todas as pessoas a exercitarem e desenvolverem sua imaginação sociológica através da apresentação de breves discussões sobre imagens sedutoras e atuais apoiadas por reflexões geradas no vasto campo da pesquisa sociológica. É também um poderoso instrumento de interpretação de mensagens da mídia.

Numa sala de cinema lotada de motoqueiros ‘bad boys’, o que você faria?*

hells angels

ATENÇÃO! O texto abaixo CONTÉM SPOILERS !!!  Só leia o texto APÓS ASSISTIR O VÍDEO! 

Este anúncio ilustra algumas idéias sociológicas, algo que posso usar em sala de aula. Não sei como. (Você já deve ter visto. Tem circulado na internet há alguns meses.)

Sim, é um comercial de cerveja, não é um documentário, nem “realidade”. Mas os casais envolvidos são reais e pegos de surpresa na situação _ como as vítimas de uma pegadinha ou de uma câmera escondida (ou sujeitos em algum experimento social).

Real e sem seguir qualquer roteiro é também nossa reação diante desta peça publicitária.

Eu não sei como se passa com você, mas depois que o anúncio terminou eu percebi que tinha vivenciado algo da ansiedade dos casais por ser diferente e, logo, excluído. Os motoqueiros estão impassíveis, talvez até silenciosamente hostis. Então quando os casais foram aceitos pelo grupo, meu sentimento de alívio era evidente. Eu dei uma sonora gargalhada ao final.

Então, o primeiro ponto sociológico que aqui aprendemos é que somos animais sociais. Quando excluídos, sentimos medo; aceitos e incluídos nos sentimos confortáveis.

O segundo aspecto sociológico é que o riso é social.

Aqui, e em muitas outras situações, é um tipo de tensiômetro. A peça publicitária não continha nenhuma piada. A risada era só liberação de tensão. Sem tensão, sem risada.

O anúncio ilustra o que denominamos “definição da situação” (Goffman).  A situação montada quebra a definição-padrão dos casais quando se trata de ir ao cinema. Eles estão ansiosos não só porque são diferentes mas também porque não possuem nenhuma definição clara e nenhum sentido claro do que fazer numa situação como esta.

Além disso, a peça publicitária traz à tona a questão dos estereótipos.

Os estereótipos podem ter efetivamente alguma precisão estatística, podem dizer algo sobre o mundo real. O problema é que o estereótipo converte uma tendência estatística em certeza absoluta. Reagimos como se esperássemos que todos os membros do estereótipo fossem daquela forma na maior parte do tempo. É razoável querer cair fora quando você vê 148 motoqueiros reunidos (Penso aqui em alguns daqueles casais que não quiseram sentar nas duas cadeiras vagas) ?

Você não precisa ler nenhum livro de Hunter S. Thompson para saber que existe alguma verdade na imagem de motoqueiros com alguma violência acima da média. Mas em uma sala de cinema onde você os vê em silêncio esperando o filme começar?

Que outras idéias sociológicas esta peça publicitária te sugere?

*Republicado como um dos melhores posts do ano, em nosso blog.

Por Jay Livingston

Postagem cruzada no Montclair SocioBlog.

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Sociological Images tem uma parceria com o blog Conhecimento Prudente. Imagens Sociológicas: Ver para crer foi criado para encorajar todas as pessoas a exercitarem e desenvolverem sua imaginação sociológica através da apresentação de breves discussões sociológicas sobre imagens sedutoras e atuais a partir de reflexões geradas no vasto campo da pesquisa sociológica. É também poderoso instrumento de interpretação de mensagens da mídia.