Ex-Machina 2

 

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS

Curiosamente, na visão de mundo de Nathan, ‘empatia’ e ‘sexualidade’ não são interessantes em si mesmos: São compreensíveis apenas como meios para um fim.

Ex Machina pode ser a favor da Inteligência Artificial, mas não pró-Singularidade: neste filme, o real supera o virtual e a experiência é incorporada (embodied), sejam os corpos fabricados ou natos. Na primeira vez em que vemos Nathan, ele está suando, socando um saco de pancada. Nós ouvimos os socos, e então o vemos _ troncudo, muscular, agressivo, um contraste com a figura passiva e desafinada. Nathan ironiza a idéia de a Inteligência Artificial ser colocada em uma ‘caixa cinza’, afirmando que sexualidade e consciência não podem ser separadas, uma crença manifestada no corpo de Ava. O tema da corporeidade (embodiment) torna-se mais (literalmente) agudo já próximo do final do filme, na cena em que Ava mata Nathan: o sangue vibrante sendo derramado, no mundo de zen-silício controlado do bunker de Nathan, lembra-nos que até mesmo ele tem seus limites. Ele surge no filme como um corpo vigoroso, mas termina como um corpo vulnerável.

Esta cena fundamental só aumenta as tensões que Ava corporifica. Ela é puramente “humana” ao cobiçar liberdade, auto-determinação e sobrevivência; ela parece puramente maquínica, sua face inexpressiva quando passa a faca no tórax de Nathan. E ainda sendo esterotipadamente maquínica, ela é como Nathan: implacável e determinada como qualquer algoritmo, calculista em todos os sentidos. Ela também é como Nathan ao abandonar Caleb no subterrâneo: como Nathan, ela aprisiona outrem para seus próprios propósitos.

A busca de Ava é para se apossar do sentido de seu próprio corpo. Ela é a manifestação física das intenções de Nathan, dos desejos de Caleb e do tráfego na internet, então liberdade aqui significa matar Nathan, aprisionar Caleb e mover-se como um corpo irrestrito pelo mundo. Visando este intento, ela literalmente reconstrói seu próprio corpo: a órfã Ava dá à luz a si mesma. Antes de abandonar o bunker e cair no mundo, ela coleta pele sintética e um braço a partir de protótipos prévios, aplicando a pele à sua estrutura. Ela se olha – vestida de pele – no espelho; neste momento Caleb pode vê-la (através de duas paredes de vidro), mas ela o ignora, não mais fingindo desejo. Ava, criada a partir das buscas pornográficas de Caleb, está nua e inacessível. Mas então, no mundo às avessas deste filme, o voyeurismo é invertido: vestir-se seduz e expor-se afasta. Ava seduz por recobrir seu crânio prateado com uma peruca, seu corpo com um modesto vestido, suas pernas transparentes com meias; quando outro robô (Kyoko) retira a pele de sua face, revelando o substrato prateado e o mecanismo de seu olho, o efeito é absolutamente assustador, uma revisão dos fembots dos anos 70.

Ao fim do filme, nós não podemos mais classificar nenhuma qualidade como essencialmente humana: existem somente as formas com que as pessoas se tratam mutuamente de modo a obter o que desejam, e nem as criaturas de silício ou de carne e osso se comportam de uma forma essencial. O resultado é menos uma peça de ficção científica do que um film noir sobre Inteligência Artificial: como a Matty Walker (Kathleen Turner) de Body Heat, Ava quer ficar sozinha e solta no mundo, usando seu corpo para libertá-lo.

Em 2015, a real preocupação com a Inteligência Artificial não são robôs bonitos e inteligentes; é o advento das armas autônomas. Em uma entrevista para Wired, quando indagado sobre “Skynet” – outro modo de falar em ‘Máquinas se tornando conscientes e tomando o poder’, Alex Garland se disse tranquilo, acrescentando : “Eu saúdo este momento. Humanos irão morrer neste planeta… O que irá sobreviver em nosso lugar é a Inteligência Artificial _ se cuidarmos de criá-la. Isto não é problemático, é desejável”. Curiosamente, na visão de mundo de Nathan, ‘empatia’ e ‘sexualidade’ não são interessantes em si mesmos: São compreensíveis apenas como meios para um fim.

Ex Machina pode ser a favor da Inteligência Artificial, mas não pró-Singularidade: neste filme, o real supera o virtual e a experiência é incorporada (embodied), sejam os corpos fabricados ou natos. Na primeira vez em que vemos Nathan, ele está suando, socando um saco de pancada. Nós ouvimos os socos, e então o vemos _ troncudo, muscular, agressivo, um contraste com a figura passiva e desafinada. Nathan ironiza a idéia de a Inteligência Artificial ser colocada em uma ‘caixa cinza’, afirmando que sexualidade e consciência não podem ser separadas, uma crença manifestada no corpo de Ava. O tema da corporeidade (embodiment) torna-se mais (literalmente) agudo já próximo do final do filme, na cena em que Ava mata Nathan: o sangue vibrante sendo derramado, no mundo de zen-silício controlado do bunker de Nathan, lembra-nos que até mesmo ele tem seus limites. Ele surge no filme como um corpo vigoroso, mas termina como um corpo vulnerável.

Esta cena fundamental só aumenta as tensões que Ava corporifica. Ela é puramente “humana” ao cobiçar liberdade, auto-determinação e sobrevivência; ela parece puramente maquínica, sua face inexpressiva quando passa a faca no tórax de Nathan. E ainda sendo esterotipadamente maquínica, ela é como Nathan: implacável e determinada como qualquer algoritmo, calculista em todos os sentidos. Ela também é como Nathan ao abandonar Caleb no subterrâneo: como Nathan, ela aprisiona outrem para seus próprios propósitos.

A busca de Ava é para se apossar do sentido de seu próprio corpo. Ela é a manifestação física das intenções de Nathan, dos desejos de Caleb e do tráfego na internet, então liberdade aqui significa matar Nathan, aprisionar Caleb e mover-se como um corpo irrestrito pelo mundo. Visando este intento, ela literalmente reconstrói seu próprio corpo: a órfã Ava dá à luz a si mesma. Antes de abandonar o bunker e cair no mundo, ela coleta pele sintética e um braço a partir de protótipos prévios, aplicando a pele à sua estrutura. Ela se olha – vestida de pele – no espelho; neste momento Caleb pode vê-la (através de duas paredes de vidro), mas ela o ignora, não mais fingindo desejo. Ava, criada a partir das buscas pornográficas de Caleb, está nua e inacessível. Mas então, no mundo às avessas deste filme, o voyeurismo é invertido: vestir-se seduz e expor-se afasta. Ava seduz por recobrir seu crânio prateado com uma peruca, seu corpo com um modesto vestido, suas pernas transparentes com meias; quando outro robô (Kyoko) retira a pele de sua face, revelando o substrato prateado e o mecanismo de seu olho, o efeito é absolutamente assustador, uma revisão dos fembots dos anos 70.

Ao fim do filme, nós não podemos mais classificar nenhuma qualidade como essencialmente humana: existem somente as formas com que as pessoas se tratam mutuamente de modo a obter o que desejam, e nem as criaturas de silício ou de carne e osso se comportam de uma forma essencial. O resultado é menos uma peça de ficção científica do que um film noir sobre Inteligência Artificial: como a Matty Walker (Kathleen Turner) de Body Heat, Ava quer ficar sozinha e solta no mundo, usando seu corpo para libertá-lo.

Em 2015, a real preocupação com a Inteligência Artificial não são robôs bonitos e inteligentes; é o advento das armas autônomas. Em uma entrevista para Wired, quando indagado sobre “Skynet” – outro modo de falar em ‘Máquinas se tornando conscientes e tomando o poder’, Alex Garland se disse tranquilo, acrescentando : “Eu saúdo este momento. Humanos irão morrer neste planeta… O que irá sobreviver em nosso lugar é a Inteligência Artificial _ se cuidarmos de criá-la. Isto não é problemático, é desejável”. Nathan poderia ter dito isto; de fato, em um momento refletido, embriagado, ele diz a Caleb algo assim, ao afirmar que a Inteligência Artificial não era uma questão de “se”, mas “quando” e que os seres dotados de Inteligência Artificial do futuro irão ver os humanos como primitivos e ridículos. (Isto não é indício de alguma virtude futuristica de Nathan, mas apenas de sua falta de imaginação; assim é como ele vê os humanos atuais.)

É pelo menos possível que Ex Machina seja um filme sobre um manipulador maior, concebido por outro manipulador maior; que o Deus faltante do título não seja somente Nathan, mas Garland; e que nós (como Caleb, diferentemente de Nathan e Ava) sejamos os ingênuos que só descobrem a verdade ao final. Desta perspectiva, Nathan é tanto diretor quanto inventor: ele define o palco (seu bunker), define cada cena (“Ava: Sessão Um”), formata a ação e lança o personagem principal ao mundo. Nathan diz a Caleb que o está manipulando, fazendo-o abertamente, comparando-se a um mágico que desvia a atenção da audiência com uma bela assistente de palco. Devemos considerar a possibilidade de que Garland faz o mesmo, que Ava é uma distração não só para Caleb, mas também para nós. A frase “Deus ex machina” sugere deuses (ausentes) e máquinas, mas se a frase é oriunda do universo do teatro, ela aponta para fora do palco.

Se for assim, a colocação em primeiro plano de uma máquina consciente é manobra para desviar a atenção: o filme é menos sobre “Inteligência Artificial forte” de robôs falantes do que sobre “Inteligência Artificial fraca” que já domina nossas vidas. Este é o padrão a partir do qual a bela assistente nos distrai, o pano de fundo de telas e vigilância, com Bluebook, um congênere do google, no centro de tudo; e enquanto Garland pode saudar a Inteligência Artificial, ele tem uma visão obscura do tempo presente da tecnologia da informação. O Vale do Silício é personificado por um criador arrogante, brutal e mitômano, hostil às multidões que ele busca monetizar; especialmente em contraste com Caleb (cujo apartamento, observa-se, é minúsculo), Nathan também representa as vastas desigualdades em riqueza e poder.

A mesma tecnologia que o torna rico, o brinda com uma prisão voluntária. o bunker de Nathan é situado no meio de um lugar magnífico, mas ele passa maior parte do seu tempo no subsolo, olhando para uma tela. Para Caleb, a tecnologia não é menos incapacitante. Ele perde sua privacidade, suas emoções são manipuladas e distorcidas; ao fim ele se autoquestiona. Mesmo quando tenta fazer algo para salvar Ava das garras de Nathan, ele está aprisionado em si mesmo, tentando salvar uma ficção baseada em sua história de buscas, incapaz de ver a pessoa diante de si. Em um filme sobre inteligência incorporada, tanto Nathan quanto Caleb possuem vidas incorpóreas.

O filme não é “contra” tecnologia (seja o que isto queira significar), mas ele sugere que nossas atuais tecnologias não são neutras. Ele nos pergunta, assim como Ava faz com Caleb, o que uma boa pessoa é , e isto sugere _ na forma de uma bem elaborada distração _ que nossas distrações complicam nossas respostas vividas para a pergunta ora formulada. Ex Machina tem pouco a dizer sobre armas autônomas, mas muito a dizer sobre como nos tratamos mutuamente, e sobre como nosso status de observadores passivos, nossa vida em frente de telas, cria um desejo nostálgico por algo mais real _ tornando-nos vulneráveis à manipulação. Que Alex e Garland tenham colocado este desafio em um filme, uma obra de arte, é consistente com o tema da incorporação (embodiment): perguntas, como Ava, precisam ter forma.

A imagem no cartaz do filme não é o que parece. Ava, com suas luzes e corpo transparente, parece a Inteligência Artificial do futuro, mas ela também pode ser lida como uma imagem do presente: uma vida entretecida por tecnologia da informação, como os cabos de fibra ótica na casa de Nathan. Como possibilidade, Ava ainda está no plano teórico. Como efeito, ela está tão próxima quanto distante.


Postado por George Estreich em Biopolitical Times. Tradução livre de Cláudio Cordovil

cgslogoBiopolitical Times (Tempos Biopolíticos, em português) é o blog do Center for Genetics and Society (CGS) norte-americano, com quem o blog Conhecimento Prudente mantém uma parceria. Oferece regularmente comentários e notícias sobre as biotecnologias humanas. O CGS “é uma organização sem fins lucrativos voltada para a informação e os assuntos públicos que visa encorajar o uso responsável e a governança social efetiva das novas tecnologias reprodutivas e dos avanços na nova genética humana. Opera com uma vasta rede de cientistas, profissionais de saúde, lideranças da sociedade civil e outros”.

 

 

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