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Atenção: CONTÉM SPOILERS !!!

A cena do escritório é tão curta quanto intensa. Nela, vemos Caleb como se estivesse sob uma câmera de computador. Uma luz colorida tremula nos lados do seu rosto; uma grade aparece sobre os contornos de seu rosto. A perspectiva da câmera sugere que ele está sendo vigiado — como de fato está — mas também, mais perturbadoramente, que ele mesmo é artificial, que o programador e o hardware partilham mais que proximidade: ele quase aparece tremulando de dentro. O mesmo efeito ocorre mais tarde no filme, quando Caleb — totalmente desorientado pelos eventos que ocorrerão — faz uma incisão em seu braço para verificar se ele é humano, esfrega sangue no espelho do banheiro, e então dá um soco no espelho com a mão. É um drama sobre identidade, sobre estar em seu corpo, sobre vigilância que dura alguns segundos, e assim como na cena inicial, nós o vemos como se através do espelho, que esconde uma câmera.

Veja o trailer de Ex Machina !

Em ambas as cenas, o ângulo da câmera mostra que há uma audiência. Vendo Caleb como voyeurs, numa tela, presumimos o ponto de vista de um observador oculto. O filme é um espelho negro, uma tela e uma janela ao mesmo tempo, nos mostrando nosso mundo como ele se nos apresenta. Ele está situado no presente, não no futuro; e no fundo seu tema, apesar dos incríveis efeitos especiais, é menos a tecnologia do futuro que a tecnologia que nos rodeia.

 Como Caleb logo percebe, a loteria é um estratagema: ele foi escolhido para interagir com Ava (Alicia Vikander), uma linda robô-mulher, para descobrir se ela está consciente de modo significativo. Depois de assinar o acordo de confidencialidade mais fechado que poderia existir, Caleb inicia a versão Nathan do teste de Turing: ele encontra Ava, apesar de separados por um vidro, e a entrevista, numa série de cenas cuja intensidade crescente se mostra enganosa por títulos esparsos – Ava: Sessão 1 – que os apresenta. Caleb e Ava podem ouvir e ver um ao outro, mas não podem se tocar. A parede de vidro é ela mesma um tipo de tela, e como o espelho de Caleb no banheiro, o vidro funciona dos dois modos: Caleb é observado enquanto observa, fala com um computador na forma de uma mulher. Eles são observados, claro, por Nathan, numa tela separada.

 Quando encontramos Caleb pela primeira vez, ele parece totalmente humano, mas seu rosto logo tremula com a luz humana; quando vemos Ava pela primeira vez, vemos sua silhueta, obviamente robótica — seus braços, pernas e torso são semi-transparentes — mas ela logo se torna mais “humana” mesmo quando o espectador, como Caleb, começa a questionar seus próprios algoritmos pessoais sobre o assunto. A performance refinada e precisa de Alicia Vikander intensifica o senso de contradição do espectador. Na medida em que o filme progride, o desespero aparente de Ava por independência — criada por Nathan, ela é também sua prisioneira — aumenta, junto com seu desejo evidente por Caleb. Os olhos dela brilham. Ela fala, reage espontaneamente. E contudo os movimentos dela, acompanhados de um zumbido suave e eficiente, parecem enervadamente calculados. Eles transmitem a sensação de serem não-humanos, ou inumanos, mesmo quando demonstram intenção humana ou similar à humana. Embora Caleb a questione, ela é uma questão viva para ele, mesmo que não respire; ela logo reverte o questionamento, fazendo perguntas por si mesma.

 Porque vemos o que Caleb vê, o que Nathan ve, Ava também é uma questão encarnada para nós. Como na abertura do filme, o voyeurismo filtrado pela tela envolve o espectador, em última instância. No mundo narrativo do filme, Ava é um híbrido entre humano e computador; num mundo de poltronas, nachos e videos transmitidos em streaming (ou assentos em estádios, pipoca e projeção digital), Ava é, de novo, um híbrido entre humano e computador, um tecido digital entre corpo e programação.

 O ambiente montado por Nathan, com seus monitores e câmeras onipresentes, é um personagem tão significativo quanto Ava. Mas ela e esse ambiente não são tão diferentes assim. Ambos são criações, até mesmo extensões, de Nathan. Como tais, ambos partilham de uma estética: o ambiente é belo mas sóbrio, uma construção que mistura “natureza” (madeira gasta, parede de pedras formando parte do espaço vivo), arte (o estranho Jackson Pollock) e tecnologica (cartões-chave, as telas onipresentes). Como Nathan diz a Caleb, as paredes do ambiente possuem “fibra ótica suficiente para chegar à Lua e laçá-la”; como Ava, o ambiente expressa o poder de Nathan sobre a natureza e a tecnologia, bem como sua habilidade de fundir ambos a seu bel-prazer. (Tudo retorna a Nathan. Abandonado por um helicóptero em um pântano nas redondezas, Caleb é informado para “seguir o rio” para achar o lugar onde Nathan mora.)

 Esse ambiente composto, um complexo principalmente subterrâneo cercado por montanhas, florestas e cachoeiras, é um paradoxo: construído nos confins da terra, ele é tabmém o centro do mundo. A firma de Nathan, Bluebook, é uma firma parecida com o Google, cujo mecanismo de busca administra “noventa e quatro por cento do tráfego de Internet mundial”. Como o rio, todos os dados retornam a Nathan, e são integrais à criação de Ava: Nathan baseia a expressividade de Ava em dados coletados em celulares ao redor do mundo, e o rosto e corpo dela são modelados (ou supermodelados) nas buscas pornográficas de Caleb na internet.

 Não é surpresa, então, que quando Caleb pergunta a Ava onde ela iria se fosse livre, ela explica que iria para um cruzamento numa grande cidade observar gente. Nisso, ela se identifica com Nathan, seu criador, o grande observador de pessoas; ela se identifica com a própria Internet, cujo tráfego é literalizado por uma interseção numa cidade; e ela reconhece seu isolamento, como alguém que precisa observar humanos para ser um deles. Ao mesmo tempo, ela afirma sua independência, ao rejeitar o virtual, ao querer ser uma pessoa comum, sem barreiras. Criada a partir de uma multidão, uma criatura cujo corpo é formado de trilhões de interações humanas, ela quer ser um corpo dentro dessa multidão.

O diretor, Alex Garland, tem descrito Ex Machina como um filme “pro-Inteligência Artificial”.Ao apresentar-nos um robô ‘em carne e osso’, em todos os sentidos, o filme sugere que o que nós denominamos “humano” tem mais a ver com próprios pensamentos, ações e valores do que com se algo existe in vivo ou in silico.  Assim, suas questões são identidade, autonomia e liberdade, e o poder de os obter.O que é dito entre Ava e Caleb, à medida que a sessão avança, é menos importante do que a transferência de poderes entre ambos _ e a forma em que todas as sessões, aparentemente espontâneas, são parte da trama de Ava para convencer Caleb a ajudá-la na fuga. O que, como Nathan explica, é o verdadeiro Teste de Turing: a habilidade de Ava para agir humanamente de forma a seguir seu caminho. (continua)


Postado por George Estreich em Biopolitical Times. Tradução livre de Emmanoel Boff

cgslogoBiopolitical Times (Tempos Biopolíticos, em português) é o blog do Center for Genetics and Society (CGS) norte-americano, com quem o blog Conhecimento Prudente mantém uma parceria. Oferece regularmente comentários e notícias sobre as biotecnologias humanas. O CGS “é uma organização sem fins lucrativos voltada para a informação e os assuntos públicos que visa encorajar o uso responsável e a governança social efetiva das novas tecnologias reprodutivas e dos avanços na nova genética humana. Opera com uma vasta rede de cientistas, profissionais de saúde, lideranças da sociedade civil e outros”.

 

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