Angelina Jolie e a saúde pública: US$ 14 milhões em testes desnecessários

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Você deve se lembrar:  Há cerca de três anos, a atriz anunciou em artigo publicado no New York Times que teria se submetido à mastectomia dupla profilática seguida de reconstrução mamária, após constatar que possuía mutação do gene BRCA1, um fator preditivo de elevado risco de câncer de mama e de ovário em alguma fase de sua vida.

Na ocasião, a notícia ganhou repercussão impressionante na mídia internacional, com reações predominantes de admiração pela “bravura” da atriz e relativamente discretos comentários de especialistas sobre a cautela a ser adotada por outras mulheres na mesma situação.

Pois bem, agora pesquisadores de Harvard investigaram dados do seguro saúde de quase 10 milhões de mulheres antes e após a publicação do artigo de opinião de Jolie no NYT. Os achados foram publicados na prestigiosa British Medical Journal.

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O Caso Samarco: A verdade sobre os metais pesados no Rio Doce!

pensador triste

Jornalistas familiarizados com a cobertura de problemas ambientais conhecem o fenômeno da “guerra de versões” entre poluidoras e organizações voltadas para o interesse público. Trata-se de um fenômeno mundial e que se combate com a provisão de informação acurada e independente . Coisa que anda faltando no jornalismo diário.

A batalha de versões neste momento se concentra na eventual presença de metais pesados nos rejeitos de minério de ferro que percorrem agora o rio Doce, pelo rompimento de barragem que os continha, em Mariana (MG). Confirmada a presença, o caso assume feições muito preocupantes dada as certezas já bastante consolidadas pela ciência sobre os efeitos carcinogênicos e patogênicos atribuídos a estes metais. Disso, deste efeito sobre a saúde humana, ninguém tem qualquer dúvida.

Metais pesados são os elementos químicos com número atômico superior a 22. Eles são conhecidos, principalmente, por comprometerem a saúde humana. O chumbo, por exemplo, pode causar envenenamento crônico, atingindo o sistema nervoso central com consequências bastante sérias. Para os peixes, as doses letais deste elemento variam de 0,1 a 0,4 mg/L, valores que também se aplicam a outras substâncias como níquel e zinco.

Devido às suas altas toxicidades, os níveis de metais pesados são rigorosamente definidos (mas será que controlados?) nas Legislações nacionais em vigor. Por exemplo, a Portaria 2914 do Ministério da Saúde, que rege os parâmetros desejados na água Potável e o Decreto 8.468 do Estado de São Paulo, que dispõe sobre o controle da poluição do meio-ambiente. As tabelas abaixo apresentam as quantidades limites para presença destas substâncias em água, nas duas legislações (clique nas imagens para aumentar):

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Samarco 2

A Samarco, que tem como acionistas a Vale do Rio Doce, privatizada por Fernando Henrique Cardoso, e a australiana BHP, afirmou , nesta sexta-feira (13/11),  que pode provar  “com laudos que o material que foi descartado no rio Doce não possui metais pesados“.

No entanto, “exames encomendados pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), de Baixo Guandu (ES), município afetado pelo problema,  atestam a presença de arsênio, chumbo, cromo, zinco, bário e manganês, entre outros, em níveis muito acima do recomendável“.

A Samarco não apresentou ao público os laudos que alega ter, muito menos suas conclusões. Já a SAAE de Baixo Guandu os divulgou publicamente. São simplesmente alarmantes.

Compare os valores constantes neste relatório com a tabela abaixo, que definem os limites toleráveis estabelecidos por lei em solo nacional. É assustador (Clique na imagem para aumentar).

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Se você já fez exame de sangue (o famoso hemograma completo), já deve ter percebido que, ao lado dos resultados de seu exame, sempre aparecem uns tais de “valores de referência” , valores limitrofes que definem o que é considerado colesterol alto, colesterol normal, etc. Isso serve pra você ter uma idéia prévia sobre o seu exame de sangue. Basta comparar os valores de seu exame com os valores de referência para verificar em linhas gerais a quantas anda sua saúde.

Pois bem, as análises ambientais encomendadas apresentam a mesma situação. Dependendo do protocolo adotado , os valores de referência podem variar grandemente. É como se , em um exame de sangue com resultados x, pelo protocolo A, você teria colesterol alto. Já pelo protocolo B, você teria colesterol considerado normal.

Pois bem: é bastante usual que as grandes empresas que potencialmente apresentam grandes riscos ambientais escolham os protocolos com valores de referência mais amplos. Assim, elas sempre podem alegar estar com observando padrões de normalidade comprovados em documentos. Mas esse nem é o caso da Samarco. Ela simplesmente se recusa a revelar seus resultados publicamente. 

Quando chega neste ponto, a discussão não deveria ser científica; mas sim política. Trata-se de saber que protocolo a sociedade entende como melhor protetor de sua saúde. Mas pra isso a gente precisa evoluir muito na democracia.

‘Ex Machina’: Prometeu (des)acorrentado

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Nosso blogueiro convidado Emmanoel Boff assistiu Ex Machina e nos diz o que lhe pareceu interessante: o que nos torna humanos? 

Ex­ machina, cuja crítica foi postada aqui no blog em duas partes, seria uma típica fábula prometeica em forma de cinemão sci fi pop, não fosse por um detalhe: nosso Prometeu é um humano que, na sua busca por criar um robô tão humano quanto possível, parece perder sua própria humanidade. “Enquanto isso”, você pode pensar, “o robô criado acaba sendo mais humano que os humanos…Blade Runner, né?” Mas será mesmo? Essa pergunta talvez seja melhor respondida pelo próprio espectador…

O que interessa, entretanto, é que a pergunta surge. Surge e faz pensar: que Prometeu tecnológico é esse que com seus inventos tecnológicos acaba correndo o risco de tirar a humanidade dos humanos? E como recupera essa ? Será que estamos num caminho de desenvolvimento tecnológico trágico e sem volta? O pensador esloveno Slavoj Zizek sugere que o aquecimento global, tensões sociais crescentes pelo globo, a revolução biogenética e o colapso dos mercados financeiros de 2008 são todos sinais do fim dos tempos (E existem bons filmes pipocas recentes sobre biogenética para acompanhar esse fim dos tempos).

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Ex-Machina discute a moralidade da Inteligência Artificial (Final)

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ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS

Curiosamente, na visão de mundo de Nathan, ‘empatia’ e ‘sexualidade’ não são interessantes em si mesmos: São compreensíveis apenas como meios para um fim.

Ex Machina pode ser a favor da Inteligência Artificial, mas não pró-Singularidade: neste filme, o real supera o virtual e a experiência é incorporada (embodied), sejam os corpos fabricados ou natos. Na primeira vez em que vemos Nathan, ele está suando, socando um saco de pancada. Nós ouvimos os socos, e então o vemos _ troncudo, muscular, agressivo, um contraste com a figura passiva e desafinada. Nathan ironiza a idéia de a Inteligência Artificial ser colocada em uma ‘caixa cinza’, afirmando que sexualidade e consciência não podem ser separadas, uma crença manifestada no corpo de Ava. O tema da corporeidade (embodiment) torna-se mais (literalmente) agudo já próximo do final do filme, na cena em que Ava mata Nathan: o sangue vibrante sendo derramado, no mundo de zen-silício controlado do bunker de Nathan, lembra-nos que até mesmo ele tem seus limites. Ele surge no filme como um corpo vigoroso, mas termina como um corpo vulnerável.

Esta cena fundamental só aumenta as tensões que Ava corporifica. Ela é puramente “humana” ao cobiçar liberdade, auto-determinação e sobrevivência; ela parece puramente maquínica, sua face inexpressiva quando passa a faca no tórax de Nathan. E ainda sendo esterotipadamente maquínica, ela é como Nathan: implacável e determinada como qualquer algoritmo, calculista em todos os sentidos. Ela também é como Nathan ao abandonar Caleb no subterrâneo: como Nathan, ela aprisiona outrem para seus próprios propósitos.

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Ex-Machina discute a moralidade da Inteligência Artificial (Parte 1)

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Atenção: CONTÉM SPOILERS !!!

A cena do escritório é tão curta quanto intensa. Nela, vemos Caleb como se estivesse sob uma câmera de computador. Uma luz colorida tremula nos lados do seu rosto; uma grade aparece sobre os contornos de seu rosto. A perspectiva da câmera sugere que ele está sendo vigiado — como de fato está — mas também, mais perturbadoramente, que ele mesmo é artificial, que o programador e o hardware partilham mais que proximidade: ele quase aparece tremulando de dentro. O mesmo efeito ocorre mais tarde no filme, quando Caleb — totalmente desorientado pelos eventos que ocorrerão — faz uma incisão em seu braço para verificar se ele é humano, esfrega sangue no espelho do banheiro, e então dá um soco no espelho com a mão. É um drama sobre identidade, sobre estar em seu corpo, sobre vigilância que dura alguns segundos, e assim como na cena inicial, nós o vemos como se através do espelho, que esconde uma câmera.

Veja o trailer de Ex Machina !

Em ambas as cenas, o ângulo da câmera mostra que há uma audiência. Vendo Caleb como voyeurs, numa tela, presumimos o ponto de vista de um observador oculto. O filme é um espelho negro, uma tela e uma janela ao mesmo tempo, nos mostrando nosso mundo como ele se nos apresenta. Ele está situado no presente, não no futuro; e no fundo seu tema, apesar dos incríveis efeitos especiais, é menos a tecnologia do futuro que a tecnologia que nos rodeia.

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Uber: o novo ‘ouro de tolo’?


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Por Emmanoel Boff

Post recente do blog Conhecimento Prudente levantou a lebre: será que, apesar de todo o frisson, o Uber realmente está com essa bola toda e valendo mais que a Petrobrás?

A pergunta faz sentido, ainda mais quando o Gawker aponta para documentos que mostram que desde 2012 o Uber só tem prejuízos. A situação abala nosso senso comum sobre economia: Como uma empresa que dá prejuízo há mais de três anos vale mais que a Petrobrás que, Lava­Jato à parte, é lucrativa?

Matt, o primeiro comentarista no post da Gawker, deve refletir a dúvida e a opinião de muitos leitores: o que o Uber possui, na verdade, é “dinheiro de mentira” (fake money), isto é, suposto dinheiro que o Uber pode auferir em um futuro indeterminado, caso venha a crescer tudo que os investidores ­­ que investem real money ­­ esperam. O problema é que, se o Uber deixar de faturar no futuro o que as pessoas esperam que ele fature, é o dinheiro real das pessoas que vai pro saco. E aí somem do mapa o equivalente a não se sabe quantos PIBs de países africanos ou latinoamericanos, como às vezes vemos nos telejornais.

Com a resenha sobre o livro recente do João Sayad aponta, talvez seja possível contar essa história de modo um pouco diferente. Ora, se como Sayad sustenta, o dinheiro é mesmo um mito, a questão central deixa de ser a distinção entre fake money e real money. A questão agora é como se mantém o mito de que o Uber vale a fé em forma de dólares depositada por um monte de investidores no valor dele. “OK”, um cético pode bradar, “mas há uma série de práticas concretas e materiais que devem embasar o valor monetário da empresa!”. Nada mais correto.

Mas a questão que estamos tentando levantar é: como ligamos e sustentamos a ligação entre essas práticas concretas e materiais que o Uber realiza e coordena com a prática simbólica de atribuir um número de x dólares à empresa (vulgarmente chamado de “valor de mercado”)?

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